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Belfast (2021) : As lembranças de um passado inquieto

Demorou, mas Belfast finalmente chegou aos cinemas brasileiros e foi no lançamento nos cinemas que eu tive opoturnidade de assistir um dos principais indicados ao oscar 2022, então sem delongas, vamos falar desse filme.
Primeiramente, eu já queria ver o filme por curtir a filmografia do Branagh e curti também os trailers de divulgação, mas acabou saindo na internet muitas críticas que detonavam o longa e chamado de uma das piores aberrações lançadas no ano, mas essas críticas, muitas das vezes escritas de maneira superficial e exagerado, pareceram muito mais pessoas que se sentiram pessoalmente ofendidas com o fato de um filme que eles não gostaram ganhar prêmios, do que realmente falando sobre a qualidade do longa.(Atenção que não estou falando das críticas negativas em si e sim dos argumentos muito superficias em muitas criticas).

Mesmo que muitos achavam que Branagh dirigiu esse filme apenas para ganhar prêmio, sinto discordar, há tempos Kenneth Branagh lança produções autorais entre os lançamentos de seus blockbusters, mas o prêmio no festival de Toronto fez o longa-metragem ser mais visto e em consequência, mais odiado.
Belfast (2021) é dirigido por Kenneth Branagh e narra a vida de uma família da classe trabalhadora da Irlanda Do Norte pela perspectiva de seu filho de 9 anos, Buddy (Jude Hill), durante os tumultiosos conflitos conhecido por The Troubles nos anos de 1960; a história é uma semibiografia do diretor, então é claro, é uma narrativa bastante nostálgica e emocional.

Branagh não tenta criar um resumo sobre os conflitos, esse não é o objetivo, mas sim homenageia a cidade, sua família e as pessoas que passaram e sofreram pelos confrontos, por isso a decisão esperta em não criar um trama fielmente biográfica e sim criar uma sensação de universalidade para a história ao colocar nomes irlandeses comuns nas crianças (Buddy, Will, Moira) e chamando os parentes apenas pelo parentesco (Pa (pai) , Ma (mãe) Pop (pai) , Granny ( Vó) e até colocando um nome de vilão de faroeste para o vilão Billy Clinton, tudo isso cria uma sensação de pertencimento misturada com uma nostalgia infantil.
Toda a tentativa de criar uma sensação de pertencimento está aqui, o tão criticado efeito preto e branco não me incomodou aqui, pois com uma coisa que tinha percebido no trailer e confirmei quando assisti o filme é que: primeiro, o filme é cinza e não preto e branco noir, e segundo, sua decisão de um filme com essa paleta de cores é referenciar os antigos fotógrafos de rua da época, tão populares na Reino Unido todo como também na Irlanda do Norte, por isso que as cenas externas da rua e principalmente com as crianças ficam muito mais vivas, amáveis e memoráveis , lembrando um belo e antigo álbum de fotos familiar.
As atuações aqui são muito boas, Kenneth Branagh é conhecido por dirigir muito bem atores mas obviamente o mérito vai para eles, começando entre os destaques, temos Caitriona Balfe como Ma, ela é o pilar da família e está radiante aqui, mostrando muito bem sobre seu receio de sair de Belfast, seu medo dos conflitos e sua determinação em cuidar da família e de seu sustento, tudo isso com um olhar cansado mas ainda amavél com todos, a melhor atuação do filme.
Jamie Dornan não brilha como sua co-estrela mas faz bem seu trabalho de pai que tenta a todo custo proteger sua família e de dar bons conselhos para seus filhos, é interessanre ver essa faceta desse ator fora dos filmes de comédia e da franquia de 50 Tons De Cinza.
Ciarian Hindis Judi Dench estão ótimos fazendo os avós do protagonista, Judi com seu modo as vezes raivosa mas também muito doce e Ciarian muito conselheiro e engraçado, ambos com o coração certo e trazendo momentos emocionantes de lavar os olhos de dentro para fora.
Colin Morgan faz o vilão aqui, mas dessa vez se utiliza apenas como um arquétipo para representar os militantes protestantes de Belfast e a subsequente deterioração da paz do bairro.
Lara Mcdonnell faz a prima Moira e protagoniza algumas das minhas cenas favoritas de todo o longa, ela tem uma química muito divertida com Jude Hill e gosto de todas as suas aparições no filme.
E tem também claro, o protagonista Buddy, intepretado por Jude Hill e que é a alma do filme, ele consegue interagir muito bem com todo mundo, tem química com todos os atores e cena e para uma criança de pouca idade tem presença e foge de ter apenas uma atuação robotizada, é uma criança que se continuar nesse ramo irá longe, como todos os atores mirins do filme.
A trama do filme se escalona para mais tensão e medo a medida que avança, mas sem deixar o bom humor de lado, é um filme bem engraçado mas que não quebra o ritmo e não parece ser gratuito aqui.
O que é gratuito é o tratamento de algumas cenas pela montagem/direção, para mim a pior cena do filme é quando o jovem Buddy pergunta a seu pai se eles sairão de Belfast, a cena que poderia muito bem mostrar o pai relutantando em responder o filho ou alguma outra reação é apenas cortada para uma outra cena de forma abrupta, não gostei dessa cena.
A escolha já comentada aqui de não ser uma biografia exata do Branagh é acertada, escolher contar a história do ponto de vista da criança e de seu amor pela família e senso de comunidade faz a gente se comprometer com todos e entender os receios de sair de sua cidade natal mesmo com os conflitos.
O cinema e teatro aqui é utilizado como válvula de escape para os problemas, além de mostrar o aflorecer artístico de Buddy, todas as cenas são integradas como um momento de irmensão que ocorre junto com a família, principalmente na cena enquanto eles assistem Chitty Chitty Bang Bang (ou O Calhambeque Mágico - 1968), é uma cena muito fofa e mostra a arte como parte da união familiar
Belfast de Kenneth Branagh não é um filme perfeito, mas me conquistou  pela sua delicadeza e simplicidade, com um toque de bom humor, mas que sabe tocar nos pontos mais fortes e tristes do conflito, tudo sustentado pelo elenco forte e pelo uso da aura de ingenuidade pura da infância mesmo em um mundo tão complicado.

Comentários

  1. Particularmente vi mais pontos negativos assistindo ao filme, mas sempre bom ver análises sobre outra perspectiva. Ótimo texto :)

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